A conversa sobre IA está demasiado presa ao que aparece no ecrã
Quando falamos de inteligência artificial, quase toda a atenção vai para o mesmo sítio: modelos, agentes, copilotos, aplicações e interfaces. É compreensível. É aí que a tecnologia se torna visível e é aí que sentimos o salto de capacidade.
Mas há uma camada menos sexy e muito mais difícil de ignorar: a IA precisa de infraestrutura para existir fora de uma demonstração.
Precisa de data centers para computar. De redes para mover dados. De fibra e sistemas ópticos para transportar volumes crescentes com baixa latência. De conectividade móvel para levar capacidade até dispositivos e operações distribuídas. De energia. De arquitetura de dados, permissões, integrações e observabilidade dentro das empresas.
Sem essa base, o modelo pode ser extraordinário e a experiência continuar medíocre.
A Nokia é um bom exemplo porque mudou de lugar na cadeia de valor
A Nokia que ficou na memória coletiva era uma empresa de telemóveis. A Nokia atual é sobretudo uma empresa de infraestrutura de rede, propriedade intelectual e tecnologia de conectividade.
Depois de vender substancialmente o negócio de Devices & Services à Microsoft numa operação anunciada por €5,44 mil milhões, reforçou a aposta em redes. A combinação com a Alcatel-Lucent, avaliada em €15,6 mil milhões, aprofundou a presença em IP, óptica, acesso fixo e investigação.
Em 2025, a divisão de Network Infrastructure gerou cerca de €8,0 mil milhões em vendas líquidas. A própria Nokia descreve essa área como fornecedora de soluções ópticas, IP, redes fixas e data center para operadores, empresas críticas e clientes de AI & Cloud.
Isto muda a forma de olhar para a empresa. Ela saiu de uma das camadas mais visíveis da tecnologia e aproximou-se de uma das mais estruturais.
A IA está a transformar rede em infraestrutura computacional
O volume de tráfego não cresce apenas porque usamos mais internet. A natureza do tráfego também muda quando inferência, agentes, vídeo sintético, workloads distribuídos e aplicações em tempo real começam a circular permanentemente entre utilizadores, dispositivos, clouds e data centers.
No relatório de 2025, a Nokia chama a óptica de componente crítico para suportar IA em escala. A empresa também colocou o crescimento em AI & Cloud entre as prioridades estratégicas e simplificou a operação em 2026 para acelerar esse posicionamento.
A parceria com a NVIDIA torna esta direção ainda mais explícita. Em outubro de 2025, a NVIDIA anunciou um investimento de mil milhões de dólares na Nokia numa colaboração para acelerar AI-RAN e a transição de 5G para 6G. Em março de 2026, a Nokia já comunicava testes e integrações com operadores como BT, Elisa, NTT DOCOMO e Vodafone.
O ponto não é que “a Nokia virou uma empresa de IA”. Isso seria simplificar demais. O ponto é que a expansão da IA aumenta o valor estratégico das redes capazes de transportar, coordenar e aproximar computação e conectividade.
Existe ainda uma segunda infraestrutura invisível: os padrões
Há outra parte da Nokia que raramente aparece numa conversa sobre telemóveis: propriedade intelectual.
A empresa afirma possuir cerca de 26 mil famílias de patentes, com mais de 8 mil famílias declaradas essenciais ao padrão 5G. São tecnologias que ajudam dispositivos e sistemas de fabricantes diferentes a comunicar dentro de padrões comuns.
É uma boa lembrança de que o digital não funciona apenas porque alguém criou uma interface melhor. Funciona porque existe uma enorme camada de acordos técnicos, protocolos, padrões, redes e engenharia por baixo dela.
E o que isto muda para uma PME que quer usar IA?
À escala de uma pequena ou média empresa, não é preciso construir uma rede 6G. Mas a lógica é exatamente a mesma.
Muitas empresas estão a tentar comprar a camada visível antes de organizar a camada invisível.
- Ligam um agente antes de saber onde está a informação certa.
- Automatizam antes de mapear exceções e aprovações.
- Compram mais uma ferramenta sem integrar CRM, email, documentos e operação.
- Pedem respostas “inteligentes” a sistemas alimentados por dados incompletos.
- Dão acesso demais ou de menos porque permissões nunca foram desenhadas.
Depois concluem que “a IA ainda não funciona”. Muitas vezes, o problema não está no modelo. Está na infraestrutura operacional da empresa.
Estar pronto para IA é uma questão de arquitetura, não de assinatura
Ter ChatGPT, Copilot, Gemini ou qualquer outro produto é acesso a uma capacidade. Não é transformação.
Uma empresa começa a ficar preparada para IA quando consegue responder com clareza a perguntas bem menos glamorosas: onde estão os dados, quem pode aceder, qual é a fonte confiável, como os sistemas comunicam, onde existe validação humana, como os erros são registados e o que acontece quando a automação falha.
É esta camada que transforma uma ferramenta de IA num sistema de trabalho.
E é por isso que a história atual da Nokia me interessa para o Digitalizando. Ela mostra uma mudança de foco que provavelmente veremos repetida em muitos setores: quanto mais poderosa fica a camada visível da tecnologia, mais valiosa se torna a infraestrutura que a sustenta.
O futuro da IA não vai ser decidido apenas por quem tiver o melhor chatbot.
Vai depender também de quem conseguir mover dados, ligar sistemas, garantir capacidade, reduzir latência, proteger acessos e fazer tudo isso funcionar de forma confiável.
O software chama a atenção. A infraestrutura decide se ele escala.
Duas leituras da mesma história
No meu site pessoal escrevi sobre a outra metade desta transformação: o que a Nokia ensina sobre growth, posicionamento e a coragem de abandonar o produto que tornou uma marca famosa.
Ler a análise de growth em miguelriedel.com ↗